A cegueira do homem

 

Atrás havia um homem.
Um homem olhando para trás.
A procura de outro homem.
Que soubesse o que traz..

Andavam todos os homens.
Todos a olhar para trás.
Não enxergavam-se os homens.
Em frente seguiam para trás.

Não tinham sentimento os homens.
Já não sabiam se eram iguais.
Julgavam-se uns aos outros os homens.
Por não saberem o que o outro traz.

Viveram a vida esses pobres homens.
Os homens da visão para trás.
Sem olhar o olho do homem.
Os homens não se reconheciam mais.

Afinal, onde vão esses homens?
Para eles, agora, tanto faz.
Perderam a consciência o homem.
O homem que não sabe o que traz.

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Minimalismo

Não há o inútil em casa.
Preencho-me com pouco.
O muito já não tem graça.
Se o peito silencia rouco.

Tirei tudo do meu porão.
Era dessa vez consciente.
Sentia-me triste nessa visão.
De materialidade que prende.

A mobília foi sumindo.
Dando espaço para mim.
O mundo mentia sorrindo.
Mas o cheio chegou ao fim.

O muito me fazia pouco.
A televisão olhava e dizia.
Quem não tinha era louco.
A inutilidade da vida vazia.

O elevar das notas.

No estilhaçar da vida se reconstrói a harmonia.
Melodia de tom lúgubre soa dentro dessa casa.
No cair das lágrimas renasce um anjo por dia.
Emergindo aos céus no eterno bailar sem pausa.

De longe percebe-se a alma leve como o pó.
Mesclando-se com as nuvens negras da cidade.
A morte é tão costumeira quanto o uso da nota dó.
No refrão marcando o inicio da vida sem vaidade.
Igual admiro um pássaro, admiro o sumir da existência.
Diferente deles buscamos o Sul por meio do descansar.
Como o extinto pede para a natureza uma clemência
Enxergando na fuga a chance dada para a dor passar.

O cantar dos pássaros reflete no silêncio do piano.
As notas caladas recriam na sala as suas lindas asas.
Ouço na sua partida os mais entristecidos sons tocando.
E o seu novo ninho tornando-se a minha cova mais rasa.

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Linhas

Words at wind

Entregue essa carta que está em sua mesa.
Sei que é na escrita que a sua alma se revela.
E, em cada linha, forma-se seu mapa astral de incertezas.
Fazendo das suas inconstâncias surgir a criatura mais bela.

Não esconda mais o que sente, amor.
Mostre para o mundo o que há de mais poético.
Pois, para te ler, precisariam enxergar através da dor.
Leitura essa que mudaria o olhar até do mais cético.

Entenda, amor, você precisa viver lá fora.
Permita-se sentir, sentir é dar significado às palavras.
Mesmo que para isso tenha que vê-la ir embora.

Ver partir para ter por perto é o maior paradoxo da vida.
Tem gente que vai embora pra morar na alma.
Lá toda escrita ganha sentido. Na alma tudo vira romance.

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Molduras

Estampei nessas suas areias de sal.
Molduras sobre folhas já mortas.
Sem veias resistentes ao vendaval.
Não quis seguir essas suas trilhas tortas.

Já não me afogo em seus mares.
Deságuo-me antes do suspiro final.
Por suas brechas respiro novos ares.
Vendo finalmente sua imagem de forma real.

Oh! Era feliz vidrado nessa ilusão.
Tristeza fantasiada de menino no colo.
Que abraça o amor em forma de braços.

Cabe a mim desprender-me da sua mão.
Transformar o aprendizado em meu solo,
E suspirar a vida na imagem de novos laços.

 

Receita primária

Não vejo a necessidade de usar muitos assuntos em um texto.
Como as cores acho três o suficiente, principalmente quando misturados.
Amor, saudade e a morte exemplificam a vida.
Amor por dar a cor principal para o existir.
A saudade aumenta o tom do amor quase apagado.
Já a morte transforma o amor e a saudade em ferramenta para abraçarmos o invisível.

Despedida

Já fomos tantas partes dessas lembranças.
Rimos, choramos, já não sentimos nada
Tudo ecoa ao redor sem esperanças .
Fechando todos os atalhos dessa nossa estrada.

Se for para desistir, prometo, desistirei…
Assim como subir todo caminho sem olhar para trás.
Subindo cada degrau de encontro ao que hoje serei .
Só restará olhar para trás, e entender o que não existe mais.

Peço, por favor, se não for para ser, cresça sozinha.
Não existe lugar que ensina viver ou amar.
Já busquei encontrar, a resposta sempre irá falhar.

Deixo, por último, um respiro de confiança minha.
Já estabelecendo em mim, o meu próprio lar .
Acreditando que se for para ser, a vida irá mostrar.